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Dermatite Psicogênica

01/08/2016

Dermatite Psicogênica / Dermatite acral por lambedura

 

Dermatite psicogênica ou dermatite acral por lambedura é uma lesão de pele causada pela lambedura excessiva do animal, localizada principalmente nas extremidades dos membros (região dorsal de mãos e pés).  A condição pode ter origem psicogênica ou orgânica [1] . Dentre as orgânicas: a furunculose acral por lambedura, doença bacteriana, fúngica, demodiciose, traumatismo anterior, alergia, corpo estranho e doença articular que devem sempre ser descartadas antes fechar um diagnostico de doença puramente psicogênica[1].

A solidão é quase sempre a causa principal do hábito do cão lamber seu membro[1]. Uma investigação detalhada revela que o cão passa boa parte do dia sozinho, sendo o paciente clássico um cão grande, ativo cujos proprietários trabalham e não possuem crianças em casa[1]. Ou não existe um outro cão como companhia ou o cão da mesma casa não desempenha atividade[1]. As restrições na liberdade do cão podem ser um fator causador:  um cão mantido em canil por longos períodos ou os cães acorrentados podem tornar-se solitários e aliviar suas frustrações lambendo constantemente uma pata [1] .

A falta de estimulação é citada frequentemente como causa principal, mas a lambedura também pode ser um comportamento de deslocamento, surgindo a partir de situações de conflito, frustração ou ansiedade[2]. Em outros casos uma dermatose focal pré-existente (ex um infecção, neoplasia ou ferida) pode desencadear um circulo vicioso. Anormalidades anatômicas como por exemplo artrite, fraturas, neuropatias de aprisionamento e causas infecciosas ou inflamatórias também podem contribuir[2] .

Raças grandes como Doberman, Labrador, Setter, Golden Retiever e Pastor Alemão são os mais comumente afetados[1,2]. Outras raças inclusive de cães menores também podem desenvolver dermatite acral por lambedura. Pode ocorrer em qualquer idade apesar da maioria dos cães ter mais de cinco anos de idade quando apresentada para o tratamento. Os machos com disturbio excedem as femeas na ordem de 2:1[1,2].

 

Sinais Clínicos

Geralmente os animais acometidos apresentam uma lesão simples unilateral [1] . O local mais comum para aparecimento de lesões é a area carpal (parte de cima das mãozinhas)  ou metacarpal cranial (parte de cima dos pézinhos)[1] . Os locais seguintes mais frequentes são a região radial (ao longo do braço), metatarsal (prolongamento do pézinho) e tibias craniais (região entre joelho e calcanhar) [1].

Fase inicial da lesão em SRD de pequeno porte

Cães afetados começam lambendo um local, removendo pelos causando  inflamação[2] , a lambedura constante provoca uma área erodida (ulcerada/ferida) na pele que coça de forma estranha[1]. Um ciclo de coça-lambe se inicia até resultar em lesão ulcerada e firme[1] . A lambedura da erosão ou da ferida leva a ulceração e a exposição das camadas mais profundas da pele [1], podendo atingir musculatura e osso. A agressão física causada no local pelo ato constante de se lamber impede a úlcera de cicatrizar e predispõe o animal a infecção secundária[1] .

Ulceração secundária a lambedura num Golden Retriever

 

A lambedura excessiva pode causar a produção e liberação de endorfinas fazendo o animal se sentir melhor (eufórico) e ao mesmo tempo produzindo um efeito analgésico que diminui a percepção de dor do animal[1] . Este processo induz o animal a lambedura compulsiva[1] .

Lesões ulceradas e profundas em mestiço Pastor Alemão

As lesões crônicas tornam-se endurecidas, placas ou nódulos espessados que apresentam uma superfície ulcerada e um halo hiperpigmentado[1] . Em alguns casos diversas patas podem estar acometidas e os casos podem responder mal ao tramento porque quase sempre existe uma doença orgânica como furunculose estafilocócica ou uma alergia que deve ser observada. Lesões extremamente grandes nas articulações, que estiveram presentes por muitos anos, podem estar associadas a artrite da articulação adjacente [1] . Com base na origem e fatores perpetuantes da condição e na resposta farmacologica acredita-se que a dermatite acral por lambedura seja um modelo de disturbio obsessivo-compulsivo.

Dermatite por lambedura com infecção secundária num cão da raça Labrador

 

Diagnóstico

O diagnóstico geralmente é feito pelo histórico, exame físico e exclusão de outras causas, como neoplasia, granulomas em pontos de pressão, calcinose, furunculose bacteriana, piodermite, demodiciose, dermatofitose, granuloma micótico ou micobacteriano e distúrbios básicos de hipersensibilidade (alergias), além de traumatismo como por exemplo fraturas, lesão neurológica, ferimento anterior ou corpo estranho[2] .

Por isso pode ser necessário realização de culturas bacterianas, fúngicas e/ou biópsia [2] até que se chegue a um diagnóstico definitivo. Radiografias também podem ser indicadas[2] para descartar possibilidades de artrites/artroses que possa estar induzindo lambedura excessiva por dor ou formigamento por exemplo.

Uma pista que pode haver um componente psicogênico da condição é o desenvolvimento de uma nova area de lambedura quando a lesão original for recoberta por bandagem ou curativos [1].

 

Tratamento

O proprietário de um animal com tal problema precisa compreender que o problema do cão está na cabeça do animal e não nos membros. Juntos, veterinário e dono do animal deve fazer uma boa "investigação" para concluir o que está levando o  animal a se auto-mutilar. As causas mais comuns incluem [1] :

  1. o cão fica sozinho boa parte do dia
  2. o cão fica confinado em jaula/canil ou corredor por longos períodos
  3. há um novo animal em casa
  4. há uma nova criança em casa
  5. existe uma fêmea no cio nas proximidades mas não acessivel ao macho
  6. um novo cão veio para a vizinhança
  7. ocorreu morte na família
  8. um companheiro de longo tempo do cão, morreu

Em caso de dermatite por lambedura de causa comportamental verdadeira, deve-se direcionar o tratamento para o comportamento psicológico e distúrbio cutâneo[2]. Portanto, mesmo que se consiga diagnosticar e tratar o problema comportamental subjacente com terapia comportamental e uso de drogas, é essencial um tratamento simultâneo da lesão cutânea[2].  A terapia clínica pode consistir em tratamento com antibióticos a longo prazo, agentes aintinflamatórios  e bloqueio do acesso á area até que a lesão comece a cicatrizar[2]. Além de tratamento sistêmico, tópico e cirúrgico da ferida associado a psicoterapia [1]

O tratamento comportamental inclui o diagnóstico e tratamento de situações e estímulos que levam ao conflito, estresse ou ansiedade[2]  assim como uma terapia com drogas psicotrópicas. Em geral é provável que seja necessário vários meses de terapia até que as lesões e o ato de se lamber, se resolvam[2].

Aumentar a frequência de brincadeiras e exercícios antes de deixar o animal sozinho e aumentar a estimulação ambiental, através de objetos para mastigar e rasgar, brinquedos e caixas com alimento escondido, fornecimento de alimento em vários locais  ou com um comedouro cronometrado, aquisição de outro animal  de estimação etc. pode  ser úteis  para manter  o animal ocupado e distraído[2].

Algumas vezes é necessário usar ataduras ou colares elizabetanos para bloquear o acesso as lesões durante os primeiros dias de tratamento, porém essa técnica pode levar a um aumento de ansiedade, piorando o problema[2]. Frequentemente se faz necessário o uso de medicamentos sistêmicos como auxiliar a maior parte dos programas de tratamento de distúrbios compulsivos[2]. O uso de antidepressivos ou inibidores seletivos de recaptação de serotonina é comum nestes casos específicos, e por serem drogas controladas devem sempre ter o acompanhamento frequente do médico veterinário. As drogas psicotrópicas podem ser necessárias por apenas um curto período de tempo, até que o hábito seja interrompido pela  modificação comporttamental ou que a solidão e estresse sejam eliminados [1].

Portanto somente o uso de medicação não é o suficiente para controlar o problema, devendo sempre estar associada a mudanças ambientais e comportamentais apropriadas.  Igualmente importante é ajudar a resolver qualquer problema médico simultâneo ou secundário que possa estar presente.

 

Maricy Alexandrino – Médica Veterinária

 

Este texto é um trabalho original do Autor e é protegido pela Lei de Direitos Autorais. Qualquer uso ou reprodução deste texto depende de prévia e expressa autorização.

 

Referências Bibliográficas

1. SCOTT, D.W.; MULLER, W.H.; GRIFFIN, C.E.; Muller & Kirk, Dermatologia de Pequenos Animais, 5º ed. Rio de Janeiro: Interlivros, 1996, p 792.

2. LANDSBERG G., HUNTHAUSEN W., ACKERMAN L.; Problemas Comportamentais do Cão e do Gato,  2º ed. São Paulo: Roca, 2005, p 187-190.

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