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Hipertermia e Intermação

18/01/2017

Hipertermia e Intermação

 

Nosso país tropical costuma ter temperaturas altas o ano todo em determinados estados, porém no verão a sensação térmica pode ser mais alta ainda, associada a climas mais úmidos, o que pode ser prejudicial para nossos animais de estimação. Além disso, muitos cães acabam viajando pra locais que não estão acostumados, sendo expostos a temperaturas além da sua rotina, como nas praias por exemplo.  E nestas condições todo cuidado deve ser redobrado com relação ao controle da temperatura corporal dos cães, em especial em raças braquicefálicas que já apresentam certeza dificuldade respiratória, como os Bulldogues (Inglês e Francês),Pugs, Boxer, Pequinês, Shih Tzu e qualquer outra raça que possa ser exposta a altas temperaturas.

Hipertermia é o termo usado para descrever qualquer aumento de temperatura central do corpo acima do normal pra espécie em questão. [¹] A temperatura média padrão dos cães varia de 38 a 39,3°C .  A hipertermia pode ser classificada em febre verdadeira, dissipação inadequada de calor, hipertermia do exercício, patológica ou farmacológica.  Neste artigo abordarei a dissipação inadequada de calor e a hipertermia do exercício que acontecem comumente no verão do nosso país, devido as altas temperaturas ambientais e em alguns casos associadas a imprudência dos responsáveis pelos cães.

A inabilidade de dissipar calor pode ser resultado de fatores endógenos (internos do animal) ou exógenos (fatores externos/ambiental). Os fatores endógenos incluem obesidade, conformação braquicefálica, paralisia de laringe, obstrução de vias aéreas superiores, doença cardiovascular, extremos de idade e doenças do sistema nervoso central. Animais com histórico de intermação são mais predispostos a novos quadros, mesmo em baixas temperaturas e umidade estável.

Fatores exógenos (externos)  incluem baixo consumo de água, confinamento em área com baixa ventilação, falta de aclimatação (mudança brusca de ambientes) e alta umidade.  Fatores que levam ao aumento na produção de calor que podem causar hipertermia e intermação incluem exercícios, doenças febris, doenças hormonais (hipertireoidismo, feocromocitoma), convulsões ou severo tremor muscular (fasciculação) .  Comumente, a intermação pode ocorrer na combinação de diminuição da capacidade em dissipar calor com aumento na produção de calor.[3]

Intermação é a uma forma de perda inadequada de calor [¹], sendo um tipo grave não febril de hipertermia que ocorre quando o mecanismo de dissipação do calor corporal não consegue eliminar o calor de forma adequada [1,2,4].  Tipicamente associado com temperaturas elevadas (41°C) sem sinais clínicos de inflamação, a intermação pode lesionar diversos órgãos. Pode ocorrer em qualquer raça, mas especialmente as de pelo longo, grande porte e nariz achatado (braquicefálicos) [1,2], pode ocorrer em qualquer idade mas em geral é mais comum em cães jovens e menos em idosos. [2]

A intermação pode ocorrer rapidamente no cão em especial em ambientes fechados com pouca ventilação (por exemplo dentro do carro com janelas fechadas ou câmara de secagem de banho e  tosa) ou mesmo em dias apenas moderadamente quentes.  As temperaturas ambientais dentro de um carro fechado exposto ao sol pode ultrapassar  48°C em menos de 20 minutos, mesmo que a temperatura externa seja apenas 23°C. [1]

 

Patofisiologia [3]
Num primeiro momento da hipertermia, o débito cardíaco aumenta devido a vasodilatação periférica e diminuição da resistência vascular.  A medida que a hipertermia progride, ocorre congestão sanguínea no baço o que causa diminuição do sangue circulante, resultando em hipotensão  (baixa da pressão sanguínea), e então  o  débito cardíaco começa a cair.

Com a diminuição do volume de sangue circulante, as medidas do organismo pra controle de calor, começam a falhar  (radiação e convecção) causando uma elevação da temperatura corporal e intermação.  Esse aumento global de temperatura começa lesionar outros órgãos,  como rins, fígado, aparelho gastrointestinal, sistema nervoso central, com taxa de mortalidade relatada nos cães variando de 36 a 50%  nestes estágio.

Sintomas [2,4]

  • ofego
  • salivação excessiva
  • aumento da temperatura corporal (acima de 39,5°C)
  • congestão de mucosas (por exemplo mucosa de boca num tom mais avermelhado que o normal)
  • palidez de mucosas
  • diminuição da produção de urina ou ausência na produção
  • insuficiência renal aguda
  • arritmia cardíaca
  • taquicardia (aumento na frequência de batimentos cardíacos)
  • choque
  • parada cardio respiratória
  • vômito (com ou sem sangue)
  • fezes com ou sem sangue (sangue vivo ou sangue digerido – enegrecido)
  • petéquias (pequenos pontos de sangramento na pele)
  • confusão mental/alteração de comportamento
  • convulsão
  • tremor muscular
  • incoordenação motora
  • desmaio/inconsciência
  • depressão
  • coma

Causas e fatores de risco [2,3]

  • Alta temperatura ambiental ou umidade (seja por condições climáticas como um dia quente ou por estar fechado em locais sem ventilação como carro ou  máquina de secar de banho e tosa - MUITO cuidado com isso!!
  • Doenças do trato respiratório superior que interferem com a respiração adequada (seja em nariz, seios nasais, faringe ou traqueia) ou doenças de base que aumentam as chances de desenvolver hipertermia como  paralisia de laringe ou de cordas vocais, doença cardiovascular, doenças neuromusculares
  • Exercícios excessivos
  • História prévia de condições relacionadas ao calor
  • Extremos de idade (muito jovem ou muito velho)
  • Intolerância ao calor por baixa aclimatação ao ambiente (como um cão de pelagem muito grande e densa em uma cidade extremamente quente ou viagens a locais de climas divergentes)
  • Obesidade
  • Insuficiência cardiopulmonar
  • Desidratação, consumo de água insuficiente, acesso restrito a água   

 

Primeiros Socorros 

Reconhecer o quanto antes os sintomas de intermação é a chave pra uma adequada recuperação. Se o aumento da temperatura do seu cão estiver relacionado a variação ambiental de temperatura, como clima, locais fechados/sem ventilação, câmara de secagem (banho e  tosa) ou exercício excessivo, o primeiro passo imediato será  retirar de tal local e tentar reduzir a temperatura corporal.[2]

É preciso resfriar o corpo do paciente imediatamente para  evitar o desfecho fatal. Algumas técnicas de resfriamento externo incluem molhar o animal com água fresca ou imergir todo o corpo do animal em água fria/fresca porém não gelada (pois se a água estiver muito gelada haverá tendência a vasoconstrição  periférica, que inibe a perda de calor e torna mais lento o processo de resfriamento e o quadro se agrava. [¹] envolver o cão em toalha gelada e uso de ventilador próximo ao cão, mas suspender tais processos assim que a temperatura chegar a 39 graus (controlando com uso de termômetro retal cada 5 minutos ) de modo evitar que a temperatura abaixe além do normal pra espécie, levando a hipotermia. [1,2,3,4] Baixar a temperatura de forma brusca pode também causar outros problemas de saúde como edema cerebral, portanto a redução gradual da temperatura é o desejado.

O mesmo serve para água de beber. Permita que seu cão beba água voluntariamente (mas não force! pois ele poderá fazer falsa via do liquido a depender do nível de consciência). Mas novamente,  não ofereça água gelada/com gelo, mas sim água fresca a temperatura ambiente. Mesmo que o cão pareça recuperado ele deve ser levado ao veterinário imediatamente, para que seja examinado com relação a hidratação, nível de consciência, presença de outros sinais clínicos e lesões em órgãos específicos. [4]

Tratamento

Em todo caso de intermação o objetivo do tratamento é aumentar a perfusão dos órgãos, para isso o melhor método é através de fluidoterapia venosa, no qual o veterinário irá escolher qual melhor produto a ser utilizado bem como a quantidade e velocidade de fluido necessário para cada caso.  A progressão da lesão do órgãos depende da duração da hipertermia. [3]

Deverá ser avaliado a necessidade de controlar a temperatura até o nível de estabilidade caso ainda não o tenha atingido, bem como monitorar continuamente. Vale lembrar que quadro de intermação não responde a antipiréticos  usados em caso de febre verdadeira [¹]  Além da fluidoterapia, poderá ser necessário oxigenioterapia e o cão será avaliado com relação as alterações decorrentes do colapso vascular e choque (principalmente nos casos de hipertermia grave – acima de 41°C)[¹]. O cão também deverá ser monitorado com relação a  dificuldade respiratória, insuficiência renal, alterações cardíacas, distúrbios de coagulação e outras complicações do quadro. Complicações como alteração de hemograma, falência renal, edema cerebral deverão ser imediatamente identificados e tratados. [²] Para isso o veterinário poderá solicitar exames de sangue antes e após o tratamento imediato, bem como poderá ser necessário uma avaliação cardíaca com eletrocardiograma.[²]. A aplicação de enemas com soro ou lavagem gastrointestinal caiu em desuso devido a vasoconstrição do aparelho gastrointestinal e o risco aumentado de isquemia e  translocação bacteriana. [3]

Na  maioria dos casos o cão deverá ficar internado até estabilização do quadro, e poderá precisar de tratamento intensivo por diversos dias caso tenha ocorrido algum dano nos órgãos citados. [2,3]

Cães com quadros moderados, quando prontamente atendidos, geralmente se recuperam sem maiores danos. Quadros severo podem causar lesões em órgãos e podem precisar de tratamento a longo prazo. [4]

Prevenção [2,4]

  • Cães que tenham tido quadro de intermação, são predispostos a te-lo novamente. Tenha cuidado e fique atento a qualquer sinal clínico  sugestivo  para que possa ser acudido de forma rápida.
  • Se o seu cão é idoso, ou é um braquicefálico, evite sair com seu ele em dias quentes e jamais o deixe em locais fechados e mal arejados, como garagens, cômodo com sol direto, quintal sem sombra ou dentro do carro.
  • JAMAIS deixe seu cão dentro do carro fechado, mesmo que seja por poucos minutos ou na sombra, pois ele se tornará perigosamente quente em poucos minutos. A temperatura dentro do carro pode rapidamente chegar aos  60 °C
  • Sempre deixe água a disposição de forma acessível pra ele e nos dias mais quentes poderá oferecer alimentos gelados para aliviar o calor.
  • Mantenha seus cães, em especial os de raças predispostas, obesos, idosos, com dificuldades respiratórias, resfriados e na sombra. Mesmo atividades comuns como caminhadas leves, podem se tornar perigosas.
  •  deixe acesso livre ao pote de água.
  • tenha certeza que os cães que vivem no quintal, tenham acesso a áreas cobertas/sombra.
  • num dia quente, restrinja o exercício e não leve seu cão para caminhadas/corridas com você. Muito exercício em dias quentes pode ser bem perigoso.
  • não use focinheiras nos dias quentes
  •  evite locais como praia e especialmente locais com concreto/piso onde o calor é refletido e não há acesso a sombra.
  • molhar seu cão com água fria ou permitir que ele nade, pode ajudar a manter a temperatura corporal adequada
  • deixe seu cão numa área fresca da sua casa. Ar condicionado é uma boa maneira que mante-lo refrescado, mas nem sempre confiável. Uma alternativa ao ar pode ser proporcional um ambiente mais fresco, congelando água em garrafas pet ou colocando gelo e água gelada em sacos plásticos tipo zip e em seguida os enrolar em toalha ou panos  e deixar o cão deitar em cima. [4]

 

Maricy Alexandrino - Médica Veterinária 

 

Este texto é um trabalho original do Autor e é protegido pela Lei de Direitos Autorais. Qualquer uso ou reprodução deste texto depende de prévia e expressa autorização.

 

Referências Bibliográficas

1.ETTINGER, S.J.; FEELDMAN, E.C.; Tratado de Medicina Interna Veterinária, 5º ed. Vol. 1, Rio de Janeiro: Guanabara, 2004.

2. NELSON, K.  Heat Stroke and Hyperthermia in Dogs, disponível em http://www.petmd.com/dog/conditions/cardiovascular/c_dg_heat_stroke  ultimo acesso em 17/01/2017 as 16:30.

3. POWELL, L. Canine Heatstroke,  em NAVC Clinician’s Brief,  2008 disponível em http://www.cliniciansbrief.com/  ultimo acesso em 18/01/2017

4. SMITH & FOSTER ,   Heatstroke (Hyperthermia),   disponível em  www.peteducation.com/article.cfm?c=2+1677&aid=1683   último acesso em  17/01/2017 as 16:20

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