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Alergia Alimentar

02/03/2017

Hipersensibilidade Alimentar ( ou Alergia Alimentar)

A hipersensibilidade ou alergia alimentar (HA) constitui uma reação adversa, mediada imunologicamente, a alimentos caseiros ou comerciais.  Tais alimentos podem conter fontes proteicas animais ou vegetais, além de outros componentes como aditivos, preservantes, conservantes, corantes entre outros.

A incidência de reações adversas aos alimentos  em cães continua controversa. Afirma-se que até 30% das doenças cutâneas nos cães se devem a dermatite alérgica e que as respostas a alérgenos ingeridos podem responder por 1% das doenças cutâneas nos cães e nos gatos.  Outros dados consideram 10-20% da totalidade dos cães alérgicos, possuindo uma reação adversa a alimentos. Em termo de ocorrência, a HA seria a segunda colocada nos gatos e a terceira nos cães dentre as alergias mais comuns nestas espécies.

A reação de hipersensibilidade alimentar pode ocorrer por vários fatores, entre eles: aumento da permeabilidade intestinal, problemas digestivos crônicos, antígenos com conteúdos altamente insolúveis e predisposição individual a reações alérgicas.

Fatores predisponentes:

  • Má digestão: A grande maioria das proteínas dietéticas, que são alérgenos ou potencialmente alergênicas, são quebradas por enzimas gástricas e intestinais, porém apenas aminoácidos e pequenos peptídeos são normalmente assimilados  pela mucosa do intestino delgado. Se a digestão for deficiente, a quantidade de antígenos no sistema imune digestivo  e seu peso molecular  for muito maior, poderá causar reações.
  • Alterações na permeabilidade intestinal: facilitando a penetração na mucosa de substâncias potencialmente alergênicas
  • Atopia: Em aproximadamente 30% dos animais atópicos, a condição clínica é significantemente melhorada com a dieta de eliminação.

 

Entre os alérgenos alimentares (alimentos que mais causam alergia) mais observados na casuística paulista, em alimentos preparados em casa, tem-se:

35% carne bovina,

15% de frango, arroz

20%  rações comerciais,

5% pão e laticínios

Os alimentos mais comumente incriminados nos estudos de alergia alimentar em cães são a carne bovina, frango e cordeiro, ovos, laticínios e soja,  mas qualquer proteína é potencialmente alergênica. Os alérgenos mais incriminados para felinos são aqueles contidos em conservas enlatadas, carne bovina e ovina, laticínios, pescado e glúten. 

A idade de início dos sinais pode ser bem variável, podendo ir de 2  meses de idade a 13 anos.  Os sinais clínicos de alergia alimentar em cães e gatos são observados tanto no trato digestivo (incomum) como na pele, e pode ocorrer reações imediatas (minutos a horas) e tardias (dentro de algumas horas a dias).  A reação intestinal pode ser leve, talvez mostrando somente uma irregularidade na consistência das fezes ou uma reação severa com vômitos, defecação frequente, flatulência e diarreias que pode conter sangue,  e geralmente ocorre logo após alimentação.

A alergia alimentar nos felinos apresenta-se mais comumente como alopecia (áreas sem pelos) e prurido intenso (coceira) não sazonal, acometendo face e pescoço, podendo tornar-se generalizado. Devido a essa coceira intensa, pode haver lesões por auto traumatismo.

O sinal mais marcante de HA é o prurido não sazonal (coceira sem  período relevante de crises)  e geralmente fracamente responsivo a corticoterapia. Nos cães não há sinais clássicos de alergia alimentar, e clinicamente não é possível diferenciar HA de atopia não sazonal.  Portanto nos cães e gatos com doença pruriginosa  devido a fatores ambientais, também pode ter alergia alimentar.

 

Devido a isso, os sintomas dermatológicos nas alergias alimentares são bem variáveis, e algumas vezes vagos, podendo ocorrer:

  • Urticária e angioedema:  sintoma pouco comum relacionado a alimentos, manifestado por inchaço de toda a face e pápulas/nodulos por todo o corpo
  • Prurido (coceira) localizada ou generalizada:  localizada em face, extremidades dos membros, pavilhões auriculares, abdômen, ao redor dos olhos e ânus;
  • Dermatite piotraumática (hot-spot, dermatite aguda úmida): lesão de pele localizada, causada por auto-traumatismo;
  • Dermatite miliar: padrão de lesão dos felinos, caracterizada por diversas pápulas crostosas. Sendo a área mais comum de acometimento  ao redor do pescoço;
  • Padrão de lesão do complexo eosinofílico fellino: úlcera indolente, placa eosinofílica ou granuloma eosinofílico;
  • Piodermite superficial recorrente;
  • Seborréia secundária;
  • Otite externa: em um determinado estudo, foi identificado como um dos únicos sinais demonstrados em 30%  dos casos;
  • Lambedura de pés;

O diagnóstico de HA é baseado nos sinais clínicos, exclusão de outras causas de coceira (principalmente infecciosas e parasitárias), resposta a dieta de eliminação e piora dos sinais a reexposição. Testes  alérgicos sorológicos ou intra dérmicos não são eficazes no diagnóstico de alergia alimentar, sendo o teste mais confiável para diagnóstico, a remoção de todos os alérgenos potenciais e a alimentação com dieta hipoalergênica. Essas dietas geralmente possuem carne e carboidratos  de fontes as quais sejam improvável que o animal já tenha sido exposto, como por exemplo:

  • fonte protéica:  carne de coelho, de pato, rã, veado/búfalo (rações importadas), peixe branco, carneiro.
  • fonte de carboidrato: arroz integral, batata, mandioca, banana, tofu, inhame, abóbora

 

Pode-se  tentar dieta caseira com tais ingredientes, ou optar por uma dieta comercial a base de proteína de hidrolisada (no Brasil disponível de soja ou frango hidrolisados). Neste tipo de ração é aplicado uma tecnologia capaz de reduzir o peso molecular da proteína, reduzindo a níveis não interpretados pelo trato gastro intestinal com alergênico, portanto incapazes de causar alergia alimentar, mas ainda   apresentando um grande teor de digestibilidade.

Existem vantagens e desvantagens nas duas opções de dieta, que devem ser avaliadas individualmente de acordo com o caso e em conjunto com o veterinário e proprietário do animal. Durante o período que o animal estiver consumindo a dieta de eliminação, absolutamente nenhum outro alimento deverá ser fornecido, isso inclui palatabilizantes de medicamentos, petiscos, briquedos de courinho bovino ou qualquer que seja a fonte que possa conter proteina, principalmente animal. A dieta deverá ser mantida por um período mínimo de 6 semanas podendo chegar a 12 semanas,  e então reavaliada. Caso o animal tenha respondido bem a triagem alimentar, novos alimentos poderão ser testados, sendo 1 alimento por vez, durante 10-14 dias.

Um dos principais empecilhos no diagnóstico e tratamento do paciente com hipersensibilidade, é a adesão do proprietário a dieta (seja caseira pelo trabalho ou comercial pelo custo), contribuição de todos os moradores na casa (crianças e idosos podem ser mais difíceis convencer a jamais fornecer petiscos de qualquer origem ao animal em tratamento),  hábitos do animal  (cães que reviram lixo ou gatos que caçam), além do período de tempo que pode demorar até o clínico chegar a um diagnóstico preciso. Além disso, o animal precisará de acompanhamento e rotina alimentar pro resto da vida, bem como manejo de dermatopatias secundárias ao quadro alérgico, como infecção bacteriana,  fúngica e seborréia.

 

Hipersensibilidade alimentar x Intolerância alimentar

O termo hipersensibilidade ou alergia alimentar está relacionado a uma resposta do sistema imune a determinada substância, que para outros seres não causaria problemas. Já o termo intolerância alimentar  refere-se a reações não ligadas a sistema imune, relacionadas a substâncias não muito bem toleradas por determinado indivíduo, como por exemplo gorduras em excesso, temperos etc. Em geral o sinal é basicamente gastro intestinal, com vômito e/ou diarreia. A intolerância é uma reação alimentar adversa  que não possui base imunológica. Um exemplo clássico, é a intolerância a lactose.

A "American Academy of Allergy and Imunology" definiu intolerância como as reações adversas a alimentos que não sejam imunologicamente mediadas. Essas reações podem incluir as idiossincrasias alimentares (nas quais um componente alimentar afeta o metabolismo do animal), as reações farmacológicas, (nas quais alguns componentes alimentares podem agir como drogas) e o a intoxicação  alimentar  no qual a reação é causada por uma toxina ou microrganismo. A intolerância pode ocorrer por diversos fatores, alguns alimentos podem causar urticária ou agravar  um quadro de dermatite atópica, ou ainda mimetizar reações anafiláticas se ela contiver altos níveis de:

  • histamina: como  tomates, espinafre, berinjela, carne bovina, fígado de porco, crustáceo fresco, atum, salsicha (embutidos), queijo (principalmente os curados), soja e derivados, frutas cítricas, kiwi, papaia.
  • componentes liberadores de histamina ou seu precursor (histidina):  chocolate, morangos, kiwi, peixe, carne suína/presunto, clara de ovo
  • triptamina:  chocolate, queijos

Clinicamente é difícil diferenciar intolerância de hipersensibilidade, e em alguns casos os dois quadros podem estar presentes no mesmo animal. Por isso o acompanhamento veterinário para uma triagem e tratamento adequado se faz essencial. Uma vez identificando o causador da alergia alimentar e o retirando, o cão ou gato poderá  manter uma ótima qualidade de vida, livre dos sintomas associados aos alimentos.

 

Maricy Alexandrino – Médica Veterinária

Este é artigo é um trabalho original do autor e é protegido pela lei dos direitos autorais . Qualquer uso ou reprodução desse texto requer previa e expressa autorização.

 

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